Saúde

Hakuna Matata: o ciclo sem fim entre sono e memórias

Hoje à noite aqui na selva (de pedra) quem dorme é o… É bem provável que você tenha completado a frase com leão, certo? Com o remake da clássica animação da Disney de 1994, O Rei Leão, milhões de pessoas ao redor do globo embarcaram novamente na história de Simba e companhia pela savana africana. E não é que o mais novo live-action do cinema voltou com tudo e – o melhor – resgatou uma lição valiosa sobre o ciclo sem fim entre sono e memórias. 

No meio do hino da selva, “Hakuna Matata”, eternizado pela icônica dupla de suricato e javali, Timão e Pumba, Simba cresce e algo extraordinário acontece: o personagem compreende que “é lindo viver” e que, sim, “os seus problemas você deve esquecer”. O trio só se esqueceu de mencionar uma parte importante nessa equação. Spoiler: não é o vilão Scar quem pode atrapalhar esse plano, é a falta de um sono de qualidade.

Para começar, vamos considerar a memória em três partes: aquisição, consolidação e recordação. Aquisição e recordação acontecem enquanto estamos acordados – assim como ocorre nas aventuras de Simba pela selva. Mas, a consolidação acontece durante a vigília e o sono. 

Consolidação significa mover a memória do “tipo amortecedora” de curto prazo para uma memória de longo prazo e, assim, atualizar a crença e conhecimento geral como novo aprendizado. Já as lembranças parecem estar cimentadas e formadas nos três tipos de sono – sono leve, sono profundo e sono REM (Movimento Rápido dos Olhos).  

SELECIONANDO O QUE LEMBRAR – À medida que os cientistas tentam descobrir os mecanismos eletrofisiológicos sobre como a memória é armazenada e recuperada, um termo que emerge na literatura é “escolha seletiva”. É dessa forma que os cientistas descrevem o processo do cérebro de selecionar memórias e torná-las duradouras durante o sono – o tal lema proclamado por Timão e Pumba nas telonas.

A questão é que os cientistas acreditam que o hipocampo e o neocórtex (córtex mais recente) utilizam métodos diferentes para armazenar memórias. Ou seja, o hipocampo armazena representações únicas úteis para a memória episódica. Enquanto que o neocórtex permite a sobreposição de representações úteis para a compreensão dos padrões – que é a memória semântica.  

Acredita-se que a memória de curto prazo seja codificada como padrões de atividade neural e as memórias de longo prazo podem ser compreendidas como mudanças estruturais no cérebro – a formação de novas sinapses que são mais persistentes. Isso explica porque a amnésia de curto prazo pode acontecer (a memória das últimas 12 horas ser eliminada) sem afetar as memórias de longo prazo.  

Estudiosos da Northwestern University escreveram um artigo em 2004 estabelecendo sua hipótese de que a “poda” da memória disponível ocorre no período da noite enquanto o cérebro embaralha e adota o que será colocado na memória declarativa. De acordo com Ken A. Paller e Joel L. Voss, ela é definida como a capacidade de recordar fatos e eventos específicos em oposição a conhecimentos e emoções de fundo.  

A comunicação entre o hipocampo e o neocórtex permite que novos dados aprendidos no dia anterior possam “atualizar” conhecimento no neocórtex. Estudos eletrofisiológicos, computacionais e de neuroimagem mostraram transferência de informações para o neocórtex. Aliás, as versões esquematizadas de algumas das memórias de curto prazo contribuem para a aprendizagem e mesmo quando a memória de um evento específico se foi, esse evento ainda contribui para o conhecimento geral.

É particularmente durante o estágio 3 do sono profundo que as memórias que foram colocadas no hipocampo (memórias de curto prazo formadas durante o dia anterior) são redistribuídas para o neocórtex (onde serão memórias de longo prazo). Essa transferência de informação acontece durante as horas de vigília, assim como no sono NREM (Movimento Não Rápido dos Olhos).  

Durante o sono REM não há muita comunicação entre essas duas áreas do cérebro. Em vez disso, o neocórtex repete as memórias para si mesmo. Esse modelo de consolidação da memória durante o sono explica porque o sono anormal NREM – de ondas lentas e durante o estágio 2 – está ligado a problemas na formação de memórias em pacientes com Alzheimer, esquizofrenia e fibromialgia. 

NEUROQUÍMICA E EXPERIÊNCIA CONSCIENTE – Altos níveis de cortisol possibilitam a interrupção da transferência de informação entre o hipocampo e o neocórtex – o que pode realmente alterar o conteúdo dos sonhos como subjetivamente são vivenciados e pode explicar porque as pessoas que sofrem de estresse (e altos níveis de cortisol) não aprendem materiais complicados ou conceituais tão prontamente. 

A pessoa que dorme experimenta essa transferência de memória e a consolidação de parte dos seus sonhos. Claro que o conteúdo dos sonhos está além do que podemos prever, mas também é claro que as atividades da pessoa no dia anterior têm um papel importante no que são os sonhos. Também é comprovado que os sonhos no sono NREM são fragmentados. Enquanto que os sonhos REM são mais coerentes e “cinematográficos”. 

Pesquisadores identificaram que a acumulação de adenosina é uma razão pela qual a privação do sono afeta a formação da memória. Algo similar ocorre com pessoas que sofrem interrupções no sono devido à fragmentação induzida pelo consumo de álcool e apneia. Há também evidências de que as pílulas para dormir prescritas inibem a consolidação da memória.  

Diante desse ciclo sem fim, se uma pessoa experimenta um dia particularmente inesquecível, em que é exposta a muitos novos estímulos, isso significa que o cérebro precisa dormir mais para acomodar mais memórias do que o normal? Hipóteses apontam que o sono após um dia “digno de um filme vencedor do Oscar” – como a versão original de O Rei Lei – seja mais intenso, mas isso ainda precisa ser comprovado. Até lá, invista em uma boa noite de sono em seu colchão de estimação e “Hakuna Matata”!  

Fontes: 

JNeurosci (The Journal of Neuroscience) – https://www.jneurosci.org 

Universidade de São Paulo (USP) – http://www.usp.br/ 

Nature Research (Reviews Neuroscience) – https://www.nature.com 

Academia Brasileira de Neurologia (ABN) – https://www.abneuro.org.br/  

National Center for Biotechnology Information (Ncbi) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ 

Associação Brasileira do Sono (Absono) – https://www.absono.com.br 

Learning and Memory – http://learnmem.cshlp.org 

Healthy Sleep (Division of Sleep Medicine at Harvard Medical School) – http://healthysleep.med.harvard.edu 

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