Imagem de um senhor sentado em uma mesa. Ele está montando um quebra-cabeça que tem formato de tronco humano. No cérebro, está faltando uma peça.
Durma melhor,  Saúde

Descubra qual a relação entre sono e memória

Nos momentos difíceis da vida, uma das formas que o corpo encontra para aliviar a ansiedade é dormir e, assim, esquecer de determinada situação. No entanto, você sabia que dormir, na verdade, fortalece a memória e a saúde mental?

Neste texto, vamos falar justamente sobre as relações entre sono e memória com base em uma pesquisa publicada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realizada pela especialista em neurociência e comportamento Vanessa Souza Fassarela Marquioli, intitulada A Influência do Sono na Memória e Emoção.

Se você deseja entender melhor e ter embasamento científico sobre como os processos que ocorrem no sono são necessários não só para a manutenção da nossa saúde física, mas também cognitiva — incluindo a memória —, continue a leitura!

O que é a memória?

Na publicação da cientista, ela revisita diversos outros pesquisadores para apresentar as definições possíveis para a memória, alegando, por exemplo, que “a memória é a capacidade de armazenar informações que possam ser recuperadas e utilizadas posteriormente (LENT, 2010)”. 

Contudo, antes de memorizar, o ser humano passa pelo processo de aprendizagem, momento no qual disponibilizamos interesse e atenção à determinada informação. 

Imagem de uma criança fazendo desenhos coloridos.
A memória pode influenciar diretamente no processo de aprendizagem.

Em seguida, esse dado é retido, ou seja, conservado e armazenado por um tempo que pode variar — seja curto ou longo, em ambos os casos somos capazes ainda de evocar informações, ou seja, lembrá-las, assim como esquecê-las.

Porém, existem ainda diversos tipos de memórias, como é o caso da memória sensorial, de curto e de longo prazo. Ela dura menos de um segundo, porém o necessário para ser percebida. Já a memória de curto prazo tem capacidade de armazenamento limitada, e acontece de segundos a minutos. 

Há ainda a memória de trabalho que corresponde a um pequeno prazo da memória explícita, armazenando de forma temporária informações para a efetivação de tarefas cognitivas, “sendo relevante para a fixação como para evocação, para a compreensão, o raciocínio, a tomada de decisões e o planejamento da ação (CHENIAUX, 2005)”. 

Já quando as memórias de curto prazo se transformam em memórias de longo prazo (processo conhecido como consolidação), todos os dados obtidos são armazenados de forma permanente e, mesmo que tenham levado alguns minutos, poderão ser evocados por anos ou até pela vida inteira.

Há ainda as memórias relacionadas à natureza, divididas em implícita ou não declarativa; explícita ou declarativa. Elas envolvem a memória dos hábitos, ocasionados por diferentes partes do corpo, provocando respostas emocionais, motoras, dos fatos, conceitos atemporais, visuais, etc.

Sono e memória

Ao analisar o efeito dos processos neurobiológicos que ocorrem no sono e a necessidade deles para a manutenção da saúde cognitiva do ser humano, a pesquisadora chegou às seguintes conclusões:

Sono e codificação da memória

Estudos realizados anteriormente de neuroimagem apontam que o sono inadequado antes de um momento de aprendizado (pelo menos uma noite antes) ocasiona alterações na atividade cerebral durante a codificação — etapa referente à aquisição de novas informações.

Sendo assim, a privação do sono antes de um dia de aula, por exemplo, proporciona “deficiência significativa no desempenho da codificação da memória declarativa (especificamente na “memória de trabalho”)”.

Imagem de uma garota adolescente. Ela está deitada na cama e utilizando o celular.
A privação do sono causa deficiência na memória.

Sono e consolidação da memória

Na hora de transformar as memórias de curto em longo prazo, uma boa noite de sono também é essencial. Ao abordar a bibliografia sobre a temática, a pesquisadora ressalta que “durante anos, estudiosos quiseram evidenciar o papel do sono na consolidação da memória. Nos primeiros estudos acerca do tema, foi observado que a força de uma memória tem melhor conservação após períodos de sono, comparando com períodos equivalentes de vigília (HARTLEY, 1801; JENKINS & DALLENBACH, 1924)”.

Esse efeito pode ser ainda mais certeiro se você tiver um slow wave-sleep (SWS), também conhecido por sono de ondas lentas — o popular sono profundo, estágio no qual realizamos movimentos oculares lentos.

Foi ainda comprovado que o sono pós-tarefa reativa o hipocampo, região envolvida na formação de novas memórias e associada ao aprendizado e às emoções, melhorando-as.

Associação, integração e criatividade

Muito mais do que simplesmente consolidar uma memória, é preciso associá-la e integrá-la em um chamado “esquema comum” que vai servir como base até mesmo para o desenvolvimento criativo.

No caso da consolidação individual de memórias longas, por exemplo, o sono inicia “[…] o processo de extração (de significado) e abstração (a construção de laços associativos com informações já existentes), criando assim mais redes semânticas adaptáveis”.

Essa ligação influencia na criatividade, definida pela pesquisadora como “a capacidade de processar pedaços de informações existentes e combiná-los de novas maneiras, levando a uma maior compreensão e a oferecer novos e vantajosos repertórios comportamentais”.

Imagem de uma criança brincando com peças de encaixar.
A memória está ligada à criatividade e possibilita a criação de um repertório comportamental.

Para ela, “evidências substanciais sugerem que o sono desempenha um papel no processamento da memória que vai muito além da consolidação e fortalecimento das memórias individuais, ao contrário, visa assimilar inteligentemente e generalizar os detalhes ‘desligados’”.

Assim, o sono proporciona a “capacidade de construir e testar esquemas comuns de informação de conhecimento, fornecendo previsões e estatísticas cada vez mais precisas sobre o mundo e permitindo a descoberta de novos, mesmo criativos, insights de solução no dia seguinte (WALKER, 2009)”.

Ao analisar toda a literatura necessária para a pesquisa, a especialista concluiu que, em relação à memória, a codificação e consolidação das informações é dependente de uma boa noite de sono (não só em quantidade, mas também em qualidade).

Em conjunto com o sono profundo e as propriedades do hipocampo, a formação e a recuperação de novas memórias declarativas resultam na lembrança que temos no dia seguinte e na reorganização da memória.

Esse processo faz com que ela se torne ainda mais fidedigna com o tempo, já que é reforçadamente representada, assim como aumenta nossa capacidade de associá-las com situações novas.

Além disso, aquelas memórias que tocam mais no nosso lado sentimental são intensificadas, enquanto as não emocionais vão desaparecendo com o tempo. 

Imagem de várias fotografias antigas.
Com o tempo, temos a tendência de preservar memórias ligadas ao emocional.

Ao final, a pesquisadora faz um alerta: “apesar dos achados atuais, o papel do sono nesses temas ainda permanece um objeto de estudo e mais pesquisas são necessárias para o melhor entendimento acerca da elucidação do papel mais exato do sono”.

O fato é que investir em uma boa noite de sono é mais do que fundamental e proporciona diversos benefícios ao corpo e, como vimos, à mente

Se você gostou da temática e ficou interessado em entender ainda mais sobre a relação entre sono e memória, leia a pesquisa completa clicando aqui. Até a próxima!

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